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sexta-feira, 14 de novembro de 2025

A Festa das Cruzes de Maio - Livro

Fiestas de Cruces y Mayos 
en el siglo XXI

Moya Maleno, F., Moya-Maleno, P.R., Martínez Ayora, I. & Navarro Justicia, E. (eds.) (2025): Fiestas de Cruces y Mayos en el siglo XXI. Tradición, pervivencia y adaptación. Revista de Estudios del Campo de Montiel Extra Nº 5. CECM. 

Sinopse  
A festa das cruzes são uma das muitas manifestações rituais do ciclo de vida das comunidades, marcando a passagem das estações. O seu simbolismo revela, muitas vezes oculta sob a aparência do cristianismo, a importância -senão a adoração- das forças naturais e espirituais relacionadas com a renovação da vida e a fertilidade. 



Claramente, o significado das diversas expressões etnológicas e do património imaterial desenvolvido entre os últimos dias de abril e os primeiros dias de maio tem sido um tema recorrente nos estudos antropológicos e históricos das religiões desde as primeiras compilações sobre o tema.



Assim, a revisão das festas e cruzes de maio no século XXI, realizada ao longo dos diferentes capítulos desta obra, permite, em primeiro lugar, voltar ao fenómeno arquetípico de visibilidade do potencial e da coesão das forças vivas da sociedade, de rituais profiláticos dos campos, povoados e espaços domésticos e, finalmente, de celebrações da exuberância da natureza em relação direta com a continuidade cíclica da vida nas comunidades rurais pré-industriais, ao menos desde a Idade do Ferro europeia

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Ir à monografia:  Fiesta Cruzes de Mayo

domingo, 1 de dezembro de 2024

O Sazonal e O Material - Livro

The Seasonal and the Material

Cveček, S. & Horejs, B. (2024): The Seasonal and the Material. Anthropology of Seasonal Practices. Nomos Verlagsgesellschaft. Baden-Baden. ISBN: 978-3-98572-188-7 DOI: 10.5771/9783985721894

Sinopse  
O Sazonal e o Material têm três objetivos. Testar que novo conhecimento pode ser gerado quando reunimos cientistas que trabalham em diferentes regiões e são especialistas em diferentes épocas através de uma perspetiva abrangente. 




Para ver o que acontece quando os cientistas aplicam a sazonalidade como uma lente abrangente ao seu material etnográfico e arqueológico. E, finalmente, questionar as perspetivas de como podemos melhor ver os seres humanos e não humanos através das lentes da temporalidade e da sazonalidade.

INDEX


+INFO sobre o livro em: The Seasonal & the Material

sábado, 21 de outubro de 2023

O Cavalo, a Pedra, o Rio e o Solsticio


Estes dias com a nova da conferencia de Guillaume Leroy sobre a figura do encantador Maugis d´Agriemont uma das personagens secundárias da gesta medieval dos Quatro Filho de Aymon, estivem lendo sobre sob outro celebre participante deste ciclo, o Cavalo Bayart, montura sobrenatural dos heróis e sobre tudo do principal protagonista do poema Rene de Montauban.

relevo numa rua da cidade de Maastricht representando aos Quatro Filhos de Aymon e Bayard. 1786

Bayard aparece no relato como um cavalo de cor vermelha como o fogo, definido como o melhor dos cavalos. Capaz de dar saltos a grandes distancia, e desbaratar com seu fortes peçunhos a inimigos, árvores ou mesmo edifícios, e   que levar aos seus donos, os quatro irmãos derriba do seu lombo, que pode estirar a vontade para lhes dar acomodo, imagem que aparece repetida longamente na iconografia desta lenda, e alcançou uma grande popularidade. 

O Nix, ilustração de Theodor Kittelsen

Bayard ajudante maravilhoso dos quatro filhos de Aymon, cavalo sobrenatural por antonomasia, e protótipo de cavalo perfeito, aparece igualmente longamente estendido pelo folclore francês misturado cuma multiplicidade de cavalos sobrenaturais como o Cheval Mallet, cavalos que igualmente alongam o lombo para acolher nele a vários ginetes convidando-os a passar um rio convertido em tumultuoso torrente e vota-los logo nae águae, episodio com final cómico ou funesto segundo o caso. Cavalos que anunciam a morte e dos que a sua soa aparição e temida, temas dos que já temos tratado (aqui). 




Fronte a estes cavalos com carácter negativo e funesto a matéria artúrica refere um cavalo de longa garupa mas representado dum jeito positivo ao modo de Bayard; assim no Kulhwch e Olwen, Llanroi o cavalo do rei Artur leva nas suas costas 4 cavaleiros feridos num combate em uma cova. Dentro da tradição céltica temos igualmente um episodio que narra como o deus do mar Mannanan MacLyr resgata tres naufragos no mar aos que da acomoda no lombo extensivel do seu cavalo, o qual corre sob as ondas como por uma chaira, levando-os a uma Ilha do Além

dois casos de Pas Bayard "pegadas de Bayard"

Bayard deixou também pegadas mesmo na toponímia, num conjunto de lendas etiológicas extendidas pelo territoio de Fraça, Beligica e Luxembugo que explicam determinadas feições da paisagem,  gravuras, ou pseudo-gravuras pétreas que foram criadas segundo a tradição pelo galope dos cascos do cavalo sobranatual. De ai os abundantes Pas Bayard repartidos pela geografia de estes paises, como o Pas Bayard do município de Durbuy pedra um sulco na sua parte superior, que se diz foi deixado quando o Ros Beiaard se impulso para saltar levando aos quatro filhos (Heemskinderen) acima até Durbuy. Um salto de nada menos que  de 10 quilómetros. 



Rocher Bayard numa pintura de 1838 e na atualidade

Também se lhe atribuida a Bayard o estado atual da chamada Rocher Bayard uns penedos serrados próximos a Dinant  que segundo a lenda adquiriram tal forma após receber um coice do mítico cavalo. 
Tradições etiológicas que recordam no folclore galego aos cavalos montados por heróis como Roldão, ou santos (Santiago, a Virgem), que saltam extensas distancias deixando nas rochas as pegadas dos cascos das suas monturas.

Ferraduras nos petrglifos das Pegadinhas da Nossa Senhora (Montalegre, Portugal) deixadas segundo a lenda pela mua da Virgem Maria

As Origens de Bayard

Mas quais são as origens deste cavalo maravilhoso. O poema dos quatros filhos de Aymon, que atribui ao imperador Carlo Magno o ter cedido Bayard aos irmãos, descreve já desde um principio uma origem sobrenatural, procedente de uma ilha feérica, que recorda a essa Ilhas do Além da mitologia céltica, onde se diz fora criado pela fada Morgana, mas sem indicar mais sobre as origens e filiação do animal.

“Ele não é um cavalo tão bom em quarenta cidades.

Bayard era o nome dele, então ouvi seu chamado;

Porque foi levado para a ilha de Bocan, entre dois mares.

De Faeria o cavalo foi trazido.

Morgane, a fada, alimentou-o com muito cuidado”

(Quatre Fils de Aymon)

Será o Cantar de Maugis d´Agriemond, o, que além da a procedência de insular,  concretizará as suas origen ao inclui umas estranha filiação não equidea senão serpentina do cavalo, filho de um dragão e uma serpe. 

Maugis O Encantador rouba aos demos o cavalo Bayard

Este cavalo fabuloso de estas origens que visan com o maligno, mas destinado a se converter no assistente do herói, fica na Ilha não cuidado afeituosamente por uma fada, senão cativo e guardado por um fero diabo. 

“Que o cavalo é fádado, segundo algumas pessoas.

Ele nasceu de um dragão e de uma serpente.

Um grande precipício o impede de escapar

E um demônio terrível se esconde, em verdade vos digo,

que é forte e feio, de nome Raanas

É um cavalo fada com corpo nobre

Quem consegue carregar alegremente o dia inteiro,

Três cavaleiros armados para um torneio,

e nenhum vestígio de suor escorreria pelos seus lados

Está nesta rocha num lugar escondido

Entre quatro pilares trabalho de ouro

E quatro grandes carvalhos, todos prateados,

O corcel está aprisionado por essas colunas”

(Cantar de Maugis d´Agriemond)


Na versão do Maugis, serão o proprio encantador quem consiga liberar o cavalo da sua prissão, e lhe-lo ceda após isto, em vez do imperador, a seus primos, os filho de Aymon dos quais será o fiel servidor nas suas aventuras, marcadas pelo inicial enfrontamento destes com o imperador Carlomagno. 


A não-morte e posteridade de Bayard

Após muitos aconteceres finalmente a gesta conta como pela intervenção dos Pares de França, entre eles Roldão, o imperador perdoa e se reconcilia com o heroi Rene de Montauban. Impondo-lhe Carlomagno em troca do perdão duas: condições: realizar uma peregrinação a Terra Santa, e ceder-lhe em propriedade a Bayard. Assim acontece, mas uma vez com o cavalo ao seu dispor, Carlomagno decide tomar nele vingança do seu antigo dono, e ordena atar o pescoço do animal a uma pesada roda de moinho que logo atiram as aguas do rio Reno ou Mosela, segundo as versões. Mas longe de morrer no fundo do rio Bayard sobrevive ao suplicio.

“Mas ao olhar ao longe, para um lugar onde o rio se alarga, vê o cavalo nadando vigorosamente, que bate com os cascos na mó, estourando muitas lascas, de modo que acaba quebrando-a como um torrão de terra . Ao se libertar dele, atravessa o largo rio e recupera o equilíbrio na outra margem onde sobe até o topo da escarpa; então ele se sacode da cabeça ao rabo, relinchando e batendo no chão com os cascos; finalmente, afunda, mais rápido que uma cotovia , no coração da floresta selvagem das Ardenas.  (Quatre files de Aymon)

Este estranho do método usado pelo imperador para matar ao cavalo encaixa curiosamente com o carácter aquático que se frequentemente se lhe atribui no folclore europeu aos cavalos sobrenaturais e feéricos.

Bayard no Mosela, ilustração de Eugene Grasset 1883

Cavalos feéricos habitantes das águas e que tentam levar lá aos incautos humanos que aceitam montar em eles, ou que saim dos rios e lagos para emprenhar as egoas locais, das quais nascera algum cavalo com extraordinarias carateristicas. Não resulta extranho ver tras do proprio Bayard um exemplo mais de esa tipologia cavalo sobrenatural, no qual a natureça aquática ficaria encoberta pelo seu aquático suplicio no Reno ou Mosela. 

"O Nix como cavalo branco" Theodor Kittelsen, 1909

Suplicio aquático que ainda não supondo a morte real do cavalo no entanto marca a separação dele do mundo humano, a sua definitiva retirada ao ambito da Feeria, escondido no fundo floresta das Ardenas onde permanece retirado: "... se diz no Reino, como lemos nas histórias, que ele ainda mora na floresta e que, se avistar alguém, em vez de se aproximar, foge o mais rápido possível, como um demônio temente a Deus" (Quatre files de Aymon).



A tradição oral ardenate acrescenta que estas aparições do fugidio Bayard se produzem durante o solstício de verão, no qual se pode ouvir o potente rinchar do cavalo, ou se-lhe observa galopando furioso pelo lugar. Uma destas cavalgadas de Bayard foi descrita ainda no século  XIX por Prosper Tarde, que recolheu em 1861 a noticia de boca de um velhinho que a relatava os feitos como acontecidos no ano 1815, durante a guerra entre franceses e prussianos:

“[…] À noite do solstício de verão, chegamos a Montcy-Notre-Dame , perto de Waridon. Cheios de cansaço, paramos para pernoitar lá. A décima segunda hora estava prestes a soar. Nossos homens estavam dormindo. Eu estava de plantão. Eu assisti, eu escutei. De repente, ao longe, no cume do Waridon, ouço um estrondo surdo. A terra estava tremendo. O barulho fica mais nítido: é o passo regular de um cavalo correndo a galope. Sob seus pés, as pedras quebram ou rolam com estrondo. - Minha fé! Confesso que o medo tomou conta de mim. Eu não teria temido os prussianos . Mas não era um hulan: era o cavalo de Maugis, o cavalo dos quatro filhos de Aymon, o cavalo encantado; era Bayard, o cavalo de fogo. Logo o rápido animal passou na minha frente como um raio, iluminando o vale, o riacho, a montanha e suas ruínas. Ele corria pelas pedras que formavam a beira da torrente. As pedras voaram atrás dele, caíram na água ou foram esmagadas. Bayard, pelas narinas, pelos cascos, lançava fogos e chamas; ele relinchou e zombou furiosamente, e eu ouvi claramente o nome de Carlo Magno . Os ecos do Waridon repetiram: Carlo Magno! Carlo Magno! em tom insolente e zombeteiro”

Este relato destaca o forte carácter ígnico de Bayard, que outras tradições populares associam igualmente com outro fogo, o fogo aéreo que se manifesta na tormenta, o raio e o trebão. Um cavalo de origens diabólicas ou monstruosas, com a pelagem da cor do fogo e que se identifica ele mesmo com o elemento, e bota chamas e iluminando a noite ou ceu. 

Iupiter, deus do trono, como cavaleiro vence ao gigante anguipedo, 
Musée Bargoin, Auvernia, França

Cavalo ígneo ou tonante que "morre"  nas águas, ele mesmo procedente de uma ilha no mar, e retorna anualmente ao mundo dos vivos no momento preciso dos solstícios estivais. Náo é muito dificil ver em estas asociaçôes conexas um fundo mítico muito claro em este equido a vez malefíco e divino, tenebrosso e luminoso que resplandecente emerge ciclicamente da feerica e humbria fraga das Ardenas.

 

Bibliografia

Castets, F. (1909): La Chanson des Quatre Fils Aymon, d'après le manuscrit La Vallière, avec introduction, description des manuscrits, notes au texte et principales variantes, appendice où sont complétés l'examen et la comparaison des manuscrits et des diverses rédactions. Coulet et fils. Montpellier.  acesivel em Gallica

Le Roux, F. (1955): "Le cheval divin et le zoomorphisme chez les Celtes", Ogam Nº 7/2, 38 pp. 101-122

Merceron, J. (2018): "Le cheval Bayart, l’enchanteur Maugis et la fée Oriande. De la médecine par le secret à la chanson de geste et retour par la mythologie celto-hellénique" NMC Nº 4 pp. 1-76 PDF

Tarde, P. (1861): Le roman des quatre fils Aymon, princes des Ardennes. P. Dubois. Reims. acessivel aqui
  

domingo, 15 de outubro de 2023

Território e Poder no Gales Medieval - Tese

Land, people and power in early medieval Wales

Comeau, R. (2019): Land, people and power in early medieval Wales: the cantref of Cemais in comparative perspective. Tese doutoral University College London. Londres.  

   
Sinopse  
Este estudo examina a estrutura da paisagem galesa do início da Idade Média. Utilizando um cantref (cem) no sudoeste do País de Gales como estudo de caso, baseia-se numa análise comparativa multidisciplinar para superar os limites impostos pela sobrevivência restrita da cultura material e pelas fontes escritas limitadas. 


Examina os padrões de poder e de atividade habitual que definiram espaços e estruturaram vidas, e considera as relações temporais, tanto sazonais como de longa duração, que os moldaram. São apresentadas quatro conclusões principais. 


Em primeiro lugar, que a clave da vida medieval –agricultura, pagamento de tributos, processos legais e caça– estava estruturada por um padrão sazonal de longa duração preservado na lei galesa dos séculos XII e XIII, nas dedicações de igrejas e as datas das feiras. Em segundo lugar, apresenta, ao nível do cantref, o primeiro levantamento sistemático de evidências de locais de Assembleia no País de Gales e colocando-os em contexto comparativo. 


Em terceiro lugar, demonstra que, embora a má preservação da cultura material e os registos escritos limitados tenham até agora restringido a identificação e caracterização de locais-chave na paisagem galesa do início da Idade Média, um conjunto de dados multidisciplinar permite a identificação eficaz de zonas focais através de indicadores conhecidos de outras áreas do noroeste. Europa. 


Em quarto lugar, o amplamente utilizado “modelo de propriedades múltiplas” é considerado um descritor inadequado da paisagem galesa do início da Idade Média. Uma abordagem metodológica alternativa é proposta demonstrando o valor duma abordagem multidisciplinar, especialmente, do uso sistemático da toponimia, novidosso para o contexto galês. 


O estudo também fornece recursos importantes para outros pesquisadores,  geolocalização nomes de lugares anteriores a 1700 a partir da pesquisa publicada anteriormente; com a criação de recursos GIS (polígonos e bases de dados geolocalizados) a partir do mapa de parroquias da década de 1840 com um detalhado estudo de caso de áreas; fornecendo um banco de dados geolocalizado de propriedades do século XVI e das propriedades dos cantref da lei galesa.


Vol. 1  PDF

Vol. 2  PDF

   Vol. 3 Anexos 



segunda-feira, 11 de setembro de 2023

O Poder dos Mortos na Idade do Bronze

The Magic of Death

Østigård, T.  (2022): The Magic of Death: Corpsepower and Indo-Europeanisation in Late Bronze Age Sweden. Occasional Papers in Archaeology Vol. 76. Uppsala University. Uppsala. ISBN: 978-91-506-2918-7

    

Sinopse  
Esta análise teórica do ritual, da religião e dos processos de sacralidade e da indo-europeização examina como as perspectivas celestiais e terrestres estão unidas em abordagens funcionais e substantivas. A religião escandinava da Idade do Bronze estava firmemente enraizada em uma cosmologia agrícola que integrava a sazonalidade do sol nas mudanças dos mundos aquáticos durante o inverno. 



Através do estudo de dois enigmáticos locais da Idade do Bronze Final, Håga e Nibble, na Suécia, o conceito de "poder do cadaver" é desenvolvido. A vida teve origem na morte e o cadáver era a fonte de vida mais poderosa. Nas tradições indo-européias e agrícolas, o poder cosmológico inerente ao cadáver era a força cosmológica definitiva que garantia a fertilidade futura e colheitas bem-sucedidas.


 A morte era um ritual e uma intensificação cosmológica que visava criar continuidade entre as estações agrícolas e incitar as forças vivificantes da natureza. A morte não foi apenas um fim ou uma forma de encerramento; o cadáver era um meio de adquirir riqueza e saúde. A morte estava acontecendo e a magia era obra dos ancestrais.


INDEX

Preface – An essay after 25 years  p. ix

Acknowledgements  p. xi

1. Death as doing, not only dying  p. 13

2. Blood, bones, bodies  p. 33

3. Håga: Cremation, sacrifice and frontier history  p. 51

4. Nibble: Grains and skull grinding  p. 66

5. Symbols, substance and essence  p. 81

6. Sympathetic magic: Similarity and contact  p. 98

7. Corpsepower, cremation and cultivation  p. 114

8. Indo-Europeanisation and cosmological intensification  p. 133

Literature  p. 151



Descarrega o livro em: The Magic of Death

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Lá acima naquela Serra ... O São João

Quando há uns mês estivem em Trás-os-Montes em Pitões das Júnias pelas Jornadas Galego-Portuguesas de este ano pude conhecer algo sobre esta ermida que se ergue aqui em este picoto no alto entre as rochas da Serra do Gerês. 

Gosto muito de Pitões e do que lã vejo refletido de nós no espelho português, da própria minha Galiza minha. Todas aquelas coisas que a este lado da raia se viram marginada ou agredidas e lá estão vitais: a permanência ainda do sistema comunal, dos baldios, as instituições de micro-goberno por baixo do concelho: da freguesia a assembleia de lugar, tão próprias da Galiza como de Portugal, mas que aqui de este lado da raia sem o referendo institucional terminaram esmorecendo. Sem idealizar, o certo é que há muito de nós lá, de uma Galiza que foi, assim como de de uma que pudendo ser nunca foi. 

Casa da Junta de Freguesia de Pitões

Mas não vou perder-me em divagações agora, esta imagem caro leitor que tens acima é do São João da Fraga. A esta ermida no alto da serra sobem ainda os moços não casados de Pitões justo hoje na véspera do São João para depois cortar na fraga mais abaixo o "Carvalho de São João" , que logo levam coletivamente entre todos eles ao povo para o plantar ainda com as verdes folhas coroando seu toro num lugar determinado para a festa que se sucedera logo à noite. 

árvore ou pau de maio repressentado em uma pintura de Francisco de Goya intitulada "La Cucaña"

Qualquer que saiba um pouco de antropologia e etnografia europeia, de seguida reconhecera os elementos nodais de este rito: 

a) O santuário em lugar liminar,  alongado e de acesso difícil com respeito ao nucleo da comunidade.

b) A participação no rito circunscrita aos moços em período liminar entre menino e homem adulto, cumplindo assim a função de rito de passagem 

c) O corte e colocação da árvore que entronca com esse tipo de ritos que tão bem estudara Julio Caro Baroja, como formando parte de um mesmo ciclo anual, o chamado "ciclo de maio" que, apesar do nome, cobre, em realidade, desde meados ou finais de abril ate o já o solstício com o São João e pouco depois o São Pedro, também associado a ritos ígneos

 c) E por último o conhecido ritual do lume propriamente dito, a fogueira do São João a que a árvore (o carvalho do santo) em este caso fica unida também como parte da cenografia geral da festa

Caldeirão de Gundestrup abaixo os guerreiros parecem portar ou suster uma árvore ou elemento vegetal que serve de divisor da composição, a jeito tal vez de Árvore de Maio

Este é um conjunto de elementos que vincula ritos cíclicos de renovação da natureza que se afundem no mais profundo passado europeu junto com ritos de passagem de não menor profundidade diacrónica e semântica. Uma boa mostra de porque como mostra o meu caro colega e amigo Pedro R. Moya Maleno na sua tese a etnografia se torna em um ferramenta útil, quando não essencial, para acesar a elementos da cultura imaterial dum passado proto-histórico que senão nos ficariam profundamente veados e/ou diretamente invisíveis.

Boa noite de São Jõao a todos!

Algo de bibliografia:

Caro Baroja, J. (1992): La estación del Amor. Fiestas populares de mayo a San Juan. Circulo de Lectores. Barcelona

Moya-Maleno, P. R (2020): Paleoetnología de la Hispania Céltica, Etnoarqueología, etnohistoria y folklore. BAR International Series Nº 2996, 2020,  2 Vols   
   

sábado, 1 de abril de 2023

A Grande Festa, história do Fim de Ano


LA GRANDE FESTA


Lanternari, V. (1959): La Grande Festa. Storia Del Capodanno Nelle Civiltà Primitive. Il Saggiatore, Verona. 


Sinopse
Partindo da comparação entre várias sociedades tradicionais de caçadores, gadeiros, agricultores e pastores nômades em diferentes continentes, o ensaio representa o significado do Ano Novo, entendido como uma celebração do começo, um momento de máximo compromisso com a vida individual e coletiva, em que o homem deve propiciar a próxima etapa de sua existência com orações, ritos e oferendas. 




Um passeio pelas formas mítico-rituais da vida religiosa nas civilizações a nível etnológico como ponto de partida para um estudo histórico-comparativo que interprete o horizonte problemático e crucial das relações entre os factos religiosos e as componentes ambientais e socioeconómicas que determinam sistema de produção nas realidades examinadas.


INDEX
  
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Jornadas on-line sobre o Entrudo na Galiza

II Jornadas Online do Entrudo de Galiza


Deixa-mos aqui os vídeos das II Jornadas On-line sobre o Entrudo na Galiza organizadas por Orgulho Galego este. As I Jornadas focaran-se em entrudos como os conhecidos de Viana do Bolo, Vilarinho de Conso, Mançaneda, Entrudo de Ribeirão, Entrudo de Samede e os Merdeiros de Vigo

Nestas segundas sessões conta-se com outros oradores para valoriçar àqueles entrudos menos conhecidas como os estrudos de Cobres, Maçeda e Sande. 

Contara-se também antropólogos e pesquisadores os quais aprofundaram no significado dos ritos do Entrudo, as suas origens, ou o papel e significado das diferentes máscaras e as semelhanças com outras culturas europeias e/ou mesmo outros continentes.


O Entroido de Cobres (Vilaboa)

Os ritos e oficiantes do Entroido: Conversa co antropólogo Rafa Quintía

O Entroido de Sande (Cartelle): Conversa con Mónica V. Lopo

Simbolismo do Entroido: Orixes e aspectos xerais. Conversa co investigador Antonio Reigosa

Cal é o significado do rito do Entroido? Conversa coa antropóloga Lidia Mariño

O Entroido de Maceda




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Os Lobos de Roma - Apresentação

WOLVES OF ROME

Quando: 24 de Março
Onde: Roma e on-line

O dia 24 de março as 17 horas PM terá lugar na Aula de Arqueologia da  Facoltà di Lettere e Filosofia da Universidade da Sapienza em Roma um debate com motivo da o lançamento do livro de K. Vuković Wolves of Rome. The Lupercalia from Roman and Comparative Perspectives (vid. aqui). Discutiram no debate com o autor os seguintes pesquisadores Zoa Alonso Fernández (Universidade Autônoma de Madri), Paolo Carafa (Sapienza Università di Roma), Giorgio Ferri (Sapienza Università di Roma), Stephen Heyworth (Universidade de Oxford) e Mario Lentano (Università di Siena).

A apressentaçao pode-se seguir fisicamente em direto ou bem via Zoom. Para mais informações e inscrições escreva ao organizador: giorgio.ferri@uniroma1.it.



Postagem relacionada: Estudos Indo-Europeus e Decolonização

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Pelo São Brás os Diabos verás


Hoje dia 3 de fevereiro, a parte de ser o dia depois a Candelária (da qual hoje não falaremos) é a festividade de São Brás, ou Brais como gostamos chamar-lhe na Galiza. São Brás/Brais de Sebaste, medico e santo do século IV ao que se tem atribuído na religião popular entre outras coisas ser avogoso para os males físicos da gorja, funções taumatúrgicas com costumes vinculados como o de portar pendurado do pescoço o "cordão de São Brás" vento em esta data que se praticava -e ainda se segue a praticar e  no atual Pais Basco (algo sobre isto aqui e aqui)

Mas agora não trataremos de isto, nem crenças de caráter ornitológico e estacional de estas datas como o "casamento" do pássaros na Candelária ou ditos como "pelo São Brás a cegonha verás"/ "pelo Sao Bras a cegonha cria", senão que abemos prestar atenção a uma peculiar festa que em honor de este santo se celebra no povo de Almoacid del Marquesado, província de Cuenca (Espanha).

Esta festa enlaça com muitas outras que se celebram durante os meses que vão entre outubro a fevereiro com especial ênfase por regula em vários casos tanto peninsulares (uns exemplos aqui e aqui) como europeus nos meses de dezembro-janeiro, coincidindo frequente o fim-principio de ano ou datas próximas a eles. Tipologia festiva da que formam parte as ruidosas processões festivas com disfarces e mascaradas no que o etnografo Julio Caro Baroja denominou como "Ciclo Invernal". 

os "cucurrumachos" do Entrudo de Navalosa, Avila (Espanha), fotografia de Carlos González Ximénez

A maioria das festas de este ciclo como é bem sabido terminariam convergindo com o calendário litúrgico cristão e vinculando suas datas ao cômputo da Semana Santa ou bem ao Natal, constituindo o substrato do Entrudo atual. 

os "Diablos Danzantes" de Almonacid, foto: Carlos González Ximénez

De estas convergência surdiram rituais ou elementos que faziam dentro de este tempo de licencia social uma critica a própria religião católica como a eleição de falsos "bispos" temporarios, frequentemente pelos meninos ou moços, um eco do qual o podemos ver na mitra bispal que portam os estranhos "homens-demo" de Almoacid.

De esquerda a direita: repressentaçao de um menino bispinho e a sua comitiva em um manuscrito mosteiro Santo Estêvão em Bamberg por volta do 1581/83; pintura mural de final do século XV ou início do século XVI representação de um menino bispo com uma mitra de sino e um joelho de porco na mão  na Igreja de São Martinho de Groningen; a Fiesta del Obispillo na cidade de Burgos na actualidade

Não nos vamos estender agora sobre o origem sincrético e complexo, nos substrato ou melhor substratos pré-cristão (e também em parte pré-romanos) de estes costumes, isso tem já uma extensa bibliografia, partindo da modelo monografia El Carnaval de Julio Caro Baroja,  e outros mais antigos como o de Michel Meslin ou M. P. Nilsson (referências aqui e aqui) passando por estudos mais recentes varios artigo do nosso colega Pedro-Reyes Moya Maleno (aqui) o qual também dedica parte da sua tese recentemente publicada a esta questão (vid. aqui). Os aspetos sociológicos e de critica ao ordem do Entrudo tem sido estudados igualmente de forma soberbia no capitulo consagrado a isto, na "Cultura Popular na Idade Moderna" do historiador Peter Burke. 


Sobre a própria festa da Endiabrada de Almonacid del Marquesado e sobre os "diablos" (diabos) nome que referiam os dançantes se inclui na próprio site web da festa (aqui) um ressume bastante sintético e ilustrativo do ritual e da de alguns detalhes como o uso de mascaras formando parte de ele, do qual quedam apenas testemunhos orais e gráficos, mas que desapareceu progressivamente ao longo do século XX, e hoje já não forma parte da indumentaria canônica dos "diabos"

Em troca de estende-nos em isto deixamos aqui embaixo uma pequena alfaia entográfica: o documentários "Los Diablos Danzantes de Almonacid del Marquesado" que foi realizado durante a época da Ditadura franquista em 1964 dentro da comemoração propagandística do denominado "Año del Pueblo" formando parte de uma serie de documentários folclóricos intitulada Don Aire de España. O documentário tem o interesse suplementar de que tanto este como a seria ao completo tivera como assessor etnográfico ao próprio Caro Baroja (sobre o documentario aqui)

Algo de Bibliografia:

Burke, P. (2014): La Cultura popular en la Europa Moderna. Alianza editorial. Madrid (vid. aqui)
   
Caro Baroja, J. (2006): El Carnaval. Analisis histórico-cultural. Alianza editorial. Madrid (vid. aqui)
  
Meslin, M. (1970): La fête des kalendes de janvier dans l'empire romain: étude d'un rituel de Nouvel an. Collection Latomus, Bruxelas
  
Moya-Maleno, P.R (2007): "Fratrías y ritos de paso en la Hispania céltica: a propósito de los Tunos de Segóbriga" in: AA.VV: Pasado y Presente de los Estudios Celtas. Fundación Ortegalia, Ortigueira PDF (livro completo aqui)
     
Moya-Maleno, P.R. (2020): Paleoetnología de la Hispania Céltica, Etnoarqueología, etnohistoria y folklore. BAR International Series Nº 2996, 2020,  2 Vols (vid. aqui)