Uma variante peculiar de este
topos e a que fazem os Mambai que Traube estuda no seu livro, ja que estes
transformam aos "estrangeiros" (os malaia) em autoctonos. Na tradição
mandai as diferências etnicas entre timores e malaios ou ainda brancos (todos
classificados genericamente como malaia) são apenas resultado de uma divissão
de linhagens e fissicos que aparece nos mito de origem nos que no obstante os
ancestrais de mambai e malaia aparecem como 2 irmão descentes de deus.
"Como deus soberano, o
papel do Céu é articular limites e divisões. Ele ordena o cosmos distribuindo
sinais de diferença, e o seu primeiro ato é dividir os seus filhos nas
categorias opostas de bocas silenciosas e bocas falantes. A enunciação
primordial da soberania retira o poder da fala dos primogénitos do Céu; é
designada por "ban do interior" ou "ban da rocha e da árvore".
Enquanto isso, os filhos humanos do Céu assumem características físicas
distintas. O mais novo "tira água branca" e "lava-se
branco/banha-se limpo", mas o mais velho "tira água negra", o
que o deixa "nem branco nem limpo", num estado sem marcas."
Após isto o Ceu divide o poder
sobre este mundo dividido entre as coisas "silenciosas" (o mundo
vegetal e animal) e as falantes (a humanidade), através de uma serie de insignias asociadas a cada um de estes ambitos da realidade. O primogenito Ki Sa, receva a rocha e a árvore sagradas, símbolos da sua autoridade ritual sob um cosmos silencioso ao mais novo, Loer Sa, deus da-lhe o livro e a pruma emblemas dos europeios.
Ao mesmo tempo o Pai Ceu deposita como posseção comum na casa originaria (trasuntos das casas sagradas timoresas) uma serie indefinida de insignias que encarnam o poder político, mas Loer sa rouba estes objetos sagrados e fuge para o norte, privando ao seu irmão maior da autoridade, o que faz que seja incapaz de governar aos homens que "nem tremem nem temem" ante as suas ordens.
A fugida por mar de Loe Sa faz
que a partir de este momento estes signos do poder sejam conhecidos como
"o ban do mar" por oposição ao "ban do interior" formado
pela arvore e a rocha que Si Ka retiveu na sua posse. Ante a evidência de que o
seu "governo não tem passo" ante o povo Ki Sa emprende a busqueda do
seu irmão para reclamar-lhe as insignias do poder:
"Empreende uma longa e
árdua viagem através do mar até Portugal. Lá, encontra o seu irmão mais novo
trancado dentro de uma casa. Ao acordar, Loer Sa recebe reverências de Ki Sa e
ouve um longo e comovente discurso. O seu irmão mais velho descreve a sua
situação difícil e recorda ao mais novo as suas obrigações para com o lugar que
abandonou. Pede a Loer Sa um novo símbolo de status que fará o seu próprio
reino "tremer e temer". Loer Sa responde entregando objetos,
prometendo que os seus descendentes regressarão a Timor com a bandeira numa
data posterior"
Investido com estes novos signos de pode substitutorios Ki Sa volta ao Timor e restavelece a ordem no reino pois agora as suas palavras são escutadas e os seus mandatos tem pesso e fazem "tremer e temer" a gente. O mito termina com o prometido
retorno dos descendes do Loe Sa, identificados com os colonos portugueses
"Passam-se gerações, mas
finalmente os Malaia, descendentes de Loer Sa, regressam a Timor, com a
bandeira hasteada no mastro do seu navio. Todos os povos da terra se reúnem
para os receber na costa. Os descendentes de Ki Sa recebem bandeiras e outras
insígnias de poder dos Malaia, mas logo renunciam a esses símbolos. Cansados do
comando, "entregam o governo" (sra ukun) a novos líderes indígenas
que vêm de fora do reino. Por este ato, os governantes originais renunciam a
todas as responsabilidades mundanas para com o reino que fundaram, mas retêm a
sua autoridade ritual sobre o cosmos. A expressão poética para a sua renúncia
ao poder é que "se sentam para cuidar da rocha e vigiar a árvore"
Através de esta renuncia o mito
descreve a justifica a situação do dominio colonial integrando-a na cosmologia
mandai, no tipico esquema de "Reis Estrangeiros" no que os
portugueses terminam ostentando as faculdade políticas e o monopolio da força
(a proteção).
No entanto os mandai comprem a função de "senhores da
terra" que através do ritual mantem o ciclo da vida e fecundidade
necessario para a supervivência fisica da sociedade. Em esta construção a
estrutura tributaria do poder colonia se amosttra não como uma relação desigual
senão de reciprocidade funcional e intercambio equilibrado:
"O mito conclui com uma
descrição da instituição de um sistema de trocas pelos Malaia e pelas
autoridades rituais. Neste sistema, as dádivas da colheita acumuladas no
interior são entregues aos Malaia, no litoral, pelos governantes executivos
indígenas. Estas dádivas são retribuídas com prestações de arroz cru, sal e
gado. A transação é representada como parte de uma troca de serviços, em que as
autoridades rituais promovem a fertilidade da terra e os Malaia guardam os
limites dos campos e jardins."
A proprio poder político inicialmente indefinido aparesce logo materializado através da bandeira portuguesa que os indigenas timoreses aos observar os extranhos rituas do seu izado e arriado solemne quotidiano pelos soldados colonias identifaram como a insignia da que procede o poder dos reis extranhos portugueses.
As insignias funcionais que definem a malaia e manbai, o livro e pruma vs. a rocha e a arvore expressam o ambito do natural que garante a vida fronte cultura burocratica, estatal e exotica dos europeus, e são reunidos através do talismam da soberania roubados do fogar comum pelo primeiro malai e retornados desde o mar, a través da bandeira.
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Mas além de esta cenificação da
estrutura e realidade social no pensamento mandai esta dicotomia adquire os
carateres de uma dualidade cosmologicos: o Norte (mar) vs. o Sul (Interior), o
Pão Ceu vs. a Mâe Terra que compreta o edificio social repressentando nos dois
postes (sul e norte) da casa sagrada.
"Subjacente ao mito está
uma oposição entre duas orientações no espaço, que se manifesta ao nível
cósmico no par teológico. Ao Céu, que ordena o cosmos, pertence o mundo
exterior, e tem a natureza aberta e irrestrita de um andarilho. À Mãe Terra,
que estabiliza e nutre o cosmos, pertence o mundo interior, o espaço escuro e
confinado da casa, e a ela pertence a natureza fechada e restrita de quem
espera num lugar de origem. Daqui decorre uma divisão das pessoas em duas
categorias: as que vagam cara o exterior e as que são deixadas para trás pelos
errantes"
Bibliografia
Traube, E.G. (1986): Cosmology and Social Life. Ritual exchange among the Mambai of East Timor. University of Chicago. Chicago & Londres
Sahlins, M. (2008a): Islas de Historia. La muerte del capitán Cook. Metafora, antropologia e historia. Gedisa. Barcelona.
Sahlins, M (2008b): "The Strnager-King or elementary forms of the politics of life" Indonesia & the Malay World Nº 36, pp. 177–199 DOI: 10.1080/13639810802267918