
Não é nada extranho, nem desconhecido, que as linhagens reais sõem ser frequêntemente as menos "autotoctonas" naqueles paises nas que reinam. Em este sentido vai um artigo recente publicado na revista
Nature Communications que vem a aportar alguma luz através do analise paleo-genètico sob a origem da dinastia
piasta, que protagoniza a época fundacional da Polonia.
Boleslvo Piast, Bolesłavo I de Polònia
O estudo feito sob restos
esqueleticos dos membros de esta linhagem aporta dados que questionam a origem
local da familia piasta:
"Seis indivíduos
identificados como Piasts apresentavam haplogrupos R1b. As análises dos dados
gerados para os Piasts R1b individuais sugeriram que seu ancestral comum
pertencia à linhagem R1b-P312. Atualmente, essa linhagem é observada com maior
frequência na Grã-Bretanha... As evidências apresentadas acima indicam que
todos os indivíduos classificados como Piastas R1b pertenciam a uma mesma
família e compartilhavam a mesma linhagem do haplogrupo Y R1b-BY3549,
atualmente rara na Europa. Entre as amostras datadas do período anterior à
formação do Estado Piasta, a mesma linhagem foi encontrada em três amostras
antigas: CGG_023713 (datada de 770–540 a.C.) da atual França<sup>
42</sup> , CGG_107766 (datada de 20–200 d.C.) dos atuais Países Baixos<sup>
42</sup> e VK177 (datada de 880–1000 d.C.) da atual Inglaterra
<sup>43</sup> . Assim, nossos dados revelam que os Piastas
pertenciam à linhagem R1b-BY3549, sugerindo que eram migrantes de origem não
eslava...
Os resultados obtidos indicam que os Piastas não eram de origem eslava e, portanto, sugerem que forças externas desempenharam um papel fundamental no processo de formação da Polônia."
Igualmente o estudo mostra a
interconexão entre a dinastia polonesa a as outras casas reias da Europa
medieval contemporanea:
"Muitas das filhas de Piast
e as mulheres que se casaram com membros da família Piast também representavam
dinastias europeias famosas; portanto, os dados genéticos que coletamos para os
membros da dinastia Piast nos permitem prever haplogrupos mitocondriais
(mt-hgs) para mais de 200 figuras históricas conhecidas. Dentro desse grupo, há
108 Piasts, 32 Rurikids, 12 Giediminids, 23 Árpáds, 15 Přemyslids, 13
Hohenzollerns, 10 Habsburgos, 8 Wettins, 5 Angevinos e 4 Wittelsbachs ..."
Isto ultimo não é nada extranho nem inesperado a pouco que se observe história das linhagens reais europeias caraterizada por um forte endogamica dentro do grupo e pressença frequente por estes emparentamentos de dinastias de origen foraneo regindo as distntias monarquias.
o evidènte parecido familiar dos primos Nicolas II da Russia e Jorge V de Inglaterra.
Os reis de Grécia esoclhidos após a independencia eram de origem alemão e casaram-se quase sem na sua maior parte com linhagen de essa origem e algumas escandinavas em menor medida. Os ingleses levam sendo governandos por soberanos não anglo-saxões mesmo desde a morte de Harold Godwineson: franceses da Normandia, e da Aquitânia, galeses (Tudor), escoceses (Estuardo), neerlandeses (Orange), e alemães (desde os Hannover aos actuais Mounbaten-Winsord, em realidade Watterberg-Saxonia Coburgo Gotta (1)).
Jean-Baptiste Bernardotte, Carlos Joâo XIV de Suécia
Na Suecia actual os reinam os descendes omonimos de um general transfugade de Napoleão (os Bernadotre), e assim trás outro, e isso sem ter em conta a citada endogamia que faz que quase todos sejam primos entre sim em um ou outro grão e as vezes por partida dobre ou triple
Tampouco o facto de descender a dinastia fundadora da Polonia de um extrangeiro não resultaria demasiado disonante na época. Sem ir mais longe no ambito polones pode-se pensar no comerciante saxão Kizo que a tribo eslava dos luticios escolhera como chefe durante a revolta de 983 contra o dominio do Sacro-Imperio Romano Germânico.
Ou poderiamos pensar também na figura de outro extrangeiro: Rurik, aquele varego de origem sueco que fundara a Rus de Kiev, dando origem a dinastia dos rurikidas que dera monarca aos distintos principados poskievanistas, incluida a Moscova até que Ivan IV, O Terrivel assasianra ao seu proprio filho cortando a continuidade sucesoria.
Rurik e seus irmãos Trúvor chegam a Ládoga. Víktor Vasnetsov (1913)
Estes sentido estes "aventureiros" vindos de fora que atuam fundadores de identidade etnico-políticas e depois estados não estão muito longe de realidades mais exoticas como a dos "reis extranhos/forasteiros" (Strnage Kings) táo tipicos do Sureste Asiático. O imaginario dos strange king no Sureste Asiático soe repressentar o poder polítoco como algo essencialmente alheio a comunidade, uma especie de corpo extranho, vindo de fora in illo tempore mas que com a sua chegada estabelece uma nova ordem que subsiste até na atualidade.
gravado no que se amostra o encontro do explorador holandês Joris van Spilbergen
com o rei Vimaladharmasuriya I de Kandi, 1609
A ideaia dos strange kings além do seu xontexto local terminou em esta região chegaria a converter-se numa forma de interpretar a dominação de potencias extrangeiras em contextos coloniais. O antropologo Marshall Sahlins amplou o padrão extendo-o a outro contextos (desde a Polinesia e Africa, ou Grécia Antiga ou o mundo mesoamericano), no que ele considerava era uma das formas elementais, senão a forma elementar, do emergência do poder político (Sahlins, 2008).
fotografa do filme Farewell to the King (1989) inspirado no topos do Strange King
Segundo o antropologo no sistema de Strange Kings existia uma dicotomia esencial entre a "autoctonia" e o "aloctonia". O padrão é conhecido e reconocivel em muitos tradições desde os mitos e lendas ao conto popular: mostra a chegada de um heroe, um extrangeiro alheio a comunidade, inclui o conflito com alguma entidade local, nomalmente descrita como monstrosa, e remata com o matrimonio entre o heroe foraneo e uma princesa autoctona.
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Recorrentemente o extrangeiro atua como heroi cultural que introduçe diversas innovações, novas costumes, objetos marcando uma ruptura com a ordem anterior (cambio nas formas de matrimonio, na estrutura social, novas instituições, etc). Além da ominpressencia em lendas e contos do heroi exiliado que mata a monstro e casa com a princesa local, há em estas tradiçoes sobre "reis extranhos" e fundacionais algo mais esencial sob o poder polírico, que em si proprio aparece cataterizado como algo "extranho", no doble sentido da palavra, algo vindo de fora mas que supõe também uma "anomalia" na ordem previa que vem a tranformar.
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É inevitavel não recordar alias aquelas comunidade de "Sociedades contra o Estado" (que quizas fora mais preciso denominar como "contra o Poder") descritas na Amaçonia por Pierre Clastres, Essas sociedades que consciênte e ativamente anulam, atraves de distntas estrategias, qualquer possivel comportamento que levara ao estabelecimento de uma autoridade ou prestigio superior de algum individuo sob outros membros da comuidade, que pudera servir de base para a constituição de qualquer formas de poder .
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E fazil imaginar como poderia ser possivel o passo de tal este estado de "anarquia", coidadosamente mantido com tanta constància, à aparição das primeiras chefias, e perceve-lo em certa como um ato carismático de fonda transgressão. E relacionar igualmente este ato de quebra primordial com alguns dados etnográficos, como o carater de grande “transgressor”, que alguns povos africanos atribuem a seus chefes, aos que se permite -ou mesmo exige-se?- um comportamento fortemente “antisocial” que rompe as normas quotidianas da sociedade, e deriva num desempenho excesivo de uma violência arbitraria, concevida, e justificada, coma um elemento constitutiva do proprio poder e sacralidade do “monarca” (Simonse, 2017).
chefe "fazedor de chuva" da vila de Cakereda (1972)
Em outro ordem de coisas Sahlins entende que os sitemas de strange king aparecem em contextos de forte contato e intercambio entre culturas a longa distancia, no que o antropologo norteamericano denomina como "Cosmopoliticas". Não seria muito extranho considerar que em momentos de forte contacto cultural, expostos ao intercambio e a chegada de novas formas, objetos, pessoas e constumes, o vindo de fora termine alterando a propria realidade preexistente de essas comunidades.
Neste sentido esse imaginario que mostra a formação do poder como a chegada de algo anomalo vindo desde fora, e vinculado as qualidades algum sujeito ou grupo carismático, seria especialmente adequado como repressentação dos profundos cambios sociais que se estâo a operar em distintos niveis da realidade. Nâo é uma imagem que resulte extranha, precissamente, a um arqueologo
De certo, se agora pensamos em epocas da pré- e proto-história europeia na que se fazem vissiveis grandes cambios culturais: unificações em koines linguisticas ou arqueológicas, a expansão de elementos de cultura material como armas, adornos, etc., a grandes distàncias, junto com tecnologias; e outros saberes denominados, as vezes, como "conhecimento esoterico" investidos do prestigio do inusual e do distante das suas origens (Helm, 1999). não seria extranho imaginar algo similar ao que topamos no caso do strange kings.
Assim o o pensara já defunto
Michael Rowlands para o Bronze Final europeu (Ling e Rowlands, 2015), Mas poderia-se igualmente projetar-se o mesmo padrão, segundo a nossa opinião, a momentos aina mais afastados da pré-história europeia como o calcolítico, mesmo com a possivilidade de vincular isto a questões tão discutidas como o processo de indo-europeização (2)
Mas faz-me pensar em outra questão também: se os "reis" da pré- e proto-história foram alguma vez strange kings em que medida não estamiaos a criar uma imagem distorsionada, quando nos debruçamos sob as tumbas, frequentemente de essa elite "regia" precissamente, para analisar a paleo-genetica do conjunto de uma sociedade num momento concreto?. Em que medida repressentaria hoje uma imagem genètica adequada do homem e mulher comuns do seu pais o ADN dum monarca europeu?
Artigo:
Zenczak, M., Handschuh, L., Marcinkowska-Swojak, M. et al. (2026):" Genetic genealogy of the Piast dynasty and related European royal families." Nat Commun Nº 17, 3224 DOI: 10.1038/s41467-026-71457-1
Bibliografia complementar
Classtres, P. (2010): La sociedad contra el estado. Virus editorial. Bilbao
Helms, M. (1993):
Craft and the Kingly Ideal. Art, trade and power. University of Textas Press. Austin. aqui
Rowlands, M. & Ling, J. (2013): "BoundarIes, flows and Connectivities: mobility and Stasis in the Bronze Age" Bergerbrant, S. & Sabatini, S. (eds.): Counterpoint: Essays in Archaeology and heritage Studies in Honour of Professor Kristian Kristiansen. BAR International Series 2508. BAR Publishing. Oxford. pp. 497-509
Sahlins, M. (2008a): Islas de Historia. La muerte del capitán Cook. Metafora, antropologia e historia. Gedisa. Barcelona.
Sahlins, M (2008b): "The Strnager-King or elementary forms of the politics of life" Indonesia & the Malay World Nº 36, pp. 177–199 DOI: 10.1080/13639810802267918
Simonse, S. (2017): Kings of Disaster: Dualism, Centralism and the Scapegoat King in Southeastern Sudan. Fountain Publishers. Kampala
Ling, J. & Rowlands, M. (2015): "The ‘Stranger King’ (bull) and rock art" Skoglund, P., Ling, J. & Bertilsson, U.:
Picturing the Bronze Age..Swedish Rock Art Series Vol. 3. Oxbow Books. Oxford. pp. 89-184
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Notas:
1) A substituição do apelido Saxonia-Coburgo-Gotta por Winsord foi resultado da molesta sonoridade alemã de este durante o a I Guerra Mundial. Igual questão motivou a anglização como Mountbatten do apelido Wattenberg.
2) Consideramos que boa parte da mitologia Indo-europeia, como o tema do "combate dos deuses", pode ser frutiferamente reinterpretada em termos da oposição "autotono" "alotono" pressente na estruturas dos sestemas de Strange King, o qual coincidira curiossamente já com a inicial intuição comparatista de Sahlins quando reconheceu a obra de Dumézil como uma das inspirações principais do seu modelo (Sahlins, 2008a)
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