sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Ficheiro Epigráficor Nº 238


FICHEIRO EPIGRÁFICO Nº 238 - 2022 



Acaba de sair do prelo o último número da revista Ficheiro Epigráfico, suplemento da revista Conímbriga, editada pelo Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra. Neste número dá-se notícia de 3 novas inscripções, 

reprodução de instrumental médico romano

Um grafito sobre um fragmento de recipiente de almacenagem (dolium) prccedente de uma villa romana., a segunda uma pequena peça de instrumental medico utilizada para procedimentos otorrinológicos, e que  o valor não apenas de aportar informação sobre a cirurgia romana, senão sobre os próprio facultativos que a exerciam, como em este caso no qual poderíamos estar ante uma mulher exercendo o oficio médico, com indica o seu nome o cognome em da posedora da peça (Parda) em genitivo Pardae ("de Parda").

A conhecida estela funerária de Julia Saturnina  medicae · optimae, Merida (MNAR)


Assunto este da dedicação medica de alguma mulher que se bem não de tudo desconhecido para a Antiguidade, sim é certo que não esta muito sobrado de dados, sobre tudo arqueológicos (textuais algo mais há (uma revisão do tema aqui)


O rio Vouga a seu paso pela antiga freguesia de Lamas do Vouga (Águeda, Aveiro)

Finalmente também se apresenta uma pequena ara sem dedicante consagrada ao deus Vaccus (*Vaccos) divindade que segundo os autores poderia corresponder-se, ou estar associada com o atual rio Vouga, Vaccua na Antiguidade. Em esta contribuição assim mesmo se discute sobre as possíveis implicações que a omissão do oferente pudera ter para conhecer a natureza e local do culto da divindade


INDEX


822 - Fragmento de dolium com grafito da villa do Monte da Cegonha, Selmes, Vidigueira (Conventus Pacensis) 
André Donas Botto, José d'Encarnação, Marco Valente 

 823 - Árula votiva do Castro de Goujoim, Armamar 
 José d'Encarnação, José Carlos Santos 


 824 - Una nueva sonda médica con inscripción 
 Marc Mayer Olivé 




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quarta-feira, 23 de novembro de 2022

De Cavalos e Homens no Oriente Próximo


The Spirited Horse 


Recht, L. (2022): The Spirited Horse. Equid–Human Relations in the Bronze Age Near East. Bloomsbury. Londres. ISBN: 978-1-3501-5891-7


Sinopse: 

Este obra apresenta uma nova perspetiva sobre as relações humano-animal no antigo Oriente Próximo, este volume considera como devemos entender os equídeos (cavalos, burros, onagros e vários híbridos) como animais que são atores sociais. 

Asno ou Onagro de electro na cimerira de um passador de rédeas da tumba da rainha Puabi, Necrópole real de Ur, século XXVI a. C 

A autora reúne uma grande quantidade de novos dados do Oriente Próximo, incluindo a cultura material da Idade do Bronze junto com toda variedade de contextos arqueológicos nos que aparecem restos de equídeos, assim como as fontes iconográficas e textuais. Se analisa em particular os achados de restos dos próprios equídeos em enterros, espaços sagrados e assentamentos junto aos artefactos que lhe estão associados, como carruagens ou arreios.

Um dos deposito de equídeos de uma das tumbas da necrópole de Tell Umm el-Marra, Aleppo, Siria, Idade do Bronze

A obra valoriza a agência de animais nas culturas do passado, oferecendo uma interessante leitura essencial para pré-historiadores, arqueólogos e todos aqueles que estudam os processos de domesticação dos primeiros animais. O livro mostrando como é que os humanos encontram e interagem com outros animais e como esses animais, por sua vez, interagem com os humanos. 

Carro tirado por asnos ou onagros em uma cena do chamado Estandarte de Ur, Necrópole Real de Ur

A autora descreve as implicações mais amplas que isto tem para o envolvimento humano com seu ambiente, tanto hoje quanto no passado, e aponta para um estudo mais focado em questões concretas através de vários apêndices

INDEX

 

+INFO sobre o livro: The Spirited Horse

terça-feira, 22 de novembro de 2022

O Corpo na Pré- e Proto-história Peninsular


A representação do corpo em objetos e os ‘mundos corporais’ Pré- e Proto-históricos da Península Ibérica


Deixamos aqui o enlace ao vídeo disponiviliçado na sua canal pelo professor V. Oliveira Jorge de uma palestra proferida pela arqueologa Ana Amor Santos o passado dia 19 de novembro em Porto. Palestra organizaçada pela Associação para o desenvolvimento da cooperação em Arqueologia Peninsular (ADECAP) e a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE).

Sinopse: 

Esta apresentação pretende dar a conhecer algumas considerações desenvolvidas na dissertação de mestrado da autora (disponível aqui), onde analisou a representação direta e indireta do corpo humano em diferentes materiais móveis datados do Neolítico à Idade do Ferro. Demonstrando como a representação é uma ferramenta única para a Arqueologia do Corpo, procura-se expor brevemente o enquadramento teórico, sublinhando os benefícios e limitações de estudos na longa diacronia, com áreas de estudo amplas e múltiplas escalas de análise.


Acessar a palestra no seguinte enlace: aqui


domingo, 20 de novembro de 2022

Repensar as Migrações na Eurasia Pré-histórica


Rethinking Migrations in Late Prehistoric Eurasia


Fernández-Götz, M., Courtney Nimura, C. Philipp W. Stockhammer, Ph.W, & Cartwright, R. (edits.) (2022): Rethinking Migrations in Late Prehistoric Eurasia. Proceedings of the British Academy


Sinopse: 

As migrações constituem uma das características mais definitórias da história humana desde seu início até o presente. Nos últimos anos, a crescente aplicação de estudos antigos ADN Antigo e isótopos estáveis tem revolucionado nossa compreensão dos movimentos populacionais no passado, embora a interpretação dos resultados ainda seja ainda pouco clara e controversa. 


Repensar as migrações na Eurásia tardo-pré-histórica tardia fornece uma visão da pesquisa de ponta sobre as migrações pré-históricas na Eurásia, integrando diferentes perspetivas de evidências e enfatizando a necessidade de combinar as análises zooarqueológicas com uma base teórica e metodológica mais sólida



Os 15 capítulos do livro vão desde o 3º ao 1º milénio aC, com um escopo geográfico que se estende da Europa Atlântica à Ásia Central. Os estudos de caso incluem uma reavaliação de migrações em grande escala, mas também estudos de alta resolução sobre microrregiões concretas. 


No geral, os resultados oferecidos no volume revelam a extraordinária diversidade das migrações na Eurásia Antiga e dos jeitos nos que a arqueologia pode contribuir a uma discussão mais ampla sobre a própria mobilidade tanto no passado como no presente.


INDEX

Rethinking Migrations in Late Prehistoric Eurasia: An Introduction
Fernández-Götz, M., Nimura, C., Stockhammer, Ph. W & Cartwright, R.

Comparing Apples and Oranges? Confronting Social Science and Natural Science Approaches to Migration in Archaeology, 
Gori, M. & Abar, A.

The Mobility and Migration Revolution in Third Millennium BC Europe, 
Heyd, V.

Bell Beaker Mobility: Marriage, Migration, and Mortality, 
Fitzpatrick, A. P.

Bronze Age Travellers, 
Kristiansen, K.

Andronovo Mobility Revisited: New Research on Bronze Age Mining and Metallurgical Communities in Central Asia, 
Stöllner, Th.; Özyarkent, H. & Gontscharov, A. 

Rethinking Material Culture Markers for Mobility and Migration in the Globalising European Later Bronze Age: A Comparative View from the Po Valley and Pannonian Plain, 
Molloy, B., Bruyeres, C. & Jovanovi, D. 

Mobility at the Onset of the Bronze Age: A Bioarchaeological Perspective, 
Stockhammer, Ph. W. & Massy, K.

Marriage, Motherhood, and Mobility in Bronze and Iron Age Central Europe, 
Rebay-Salisbury, K.

Migration in Archaeological Discourse: Two Case Studies from the Late Bronze and Early Iron Age, Metzner-Nebelsick, C.

The Scale of Population Movements: A Model for Later Prehistory, 
Wells, P. S.

Alpine Connections: Iron Age Mobility in the Po Valley and the Circum-Alpine Regions, 
Icolani, V. & Zamboni, L.

Mobility and Migration in Bronze and Iron Age Britain: The COMMIOS Project, 
Armit, I.

Migration and Ethnic Dynamics in the Lower Rhine Frontier Zone of the Expanding Roman Empire (60 BC-AD 20): A Historical-Anthropological Perspective
 Roymans, N. & Habermehl, D.

On the Move: Relating Past and Present Human Mobility, 
Nimura, C., Cartwright, Stockhammer, Ph. W.; Fernández-Götz, M.


+INFO sobre o livro no enlace: Rethinking Migrations

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Copos, Caldeirões, Mortos e Banquetes

Este estudo trata a expansão geográfica de um traço concreto das culturas élitares do I Milénio, o uso em principio secundário de vasos de bronze, originalmente pensados para conter líquidos em cerimonias que implicavam o consumo alcoólico, como urnas cinerárias.  

Carrinho-Caldeirão de Skallerup, Museu Nacional de Dinamarca

A similitude de este ritual funerário é o descrito em fontes épica como a homérica Ilíada ou nas fontes hititas da Idade do Bronze, tem chamado a atenção a atenção do arqueólogos no intento de cartografar e explicar o expansão do costume da incineração sobre a inumação no Mediterrânea, e do uso de este tipo de contendor mais em concretos para tal fim.

Restituição gráfica do Carrinho-Caldeirão de Skallerup (Dinamarca)

Este estudos normalmente tem enfatizado a relação de esta pratica com a expansão de um pacote que amostra uma serie de objetos comuns que vão da mão da adoção de uma serie de praticas como parte de uma cultura de elite, que traspassa diversos âmbitos culturais. Instituições como o banquete, a adoção de determinadas formas de guerra e armamento e os valores, ou mesmo evolução política que estariam associados a estes câmbios, tem sido temas frequentes de estudo nas últimas décadas entorno a mobilidade e os contactos transculturais (e coloniais) na Proto-historia europeu e da área Mediterrânea em particular.

Espada hallstattica do s. IX a. C. Naturhistorisches Museum Nürnberg, foto: Oliver Dietrich 

Oriente Próximo (fundamentalmente o Levante), Itália, Grécia e os Balcãs ou o levante peninsular tem sido zonas abundantemente estudadas em essa linha de pesquisa, sem desbotar estudos que enlaçam também com o mundo Centro-Europeu e Atlântico como o volume de Sabine Gerloft sobre os caldeiros e sítulas do Bronze Final-Ferro no PBF. Este estudo que aqui recenseámos pretende abrir a um área mais geral sistematizando os dados sobre os enterramentos em vasos metálicos gerados desde o Mar Negro até Centro-Europeia em conjunto como os conhecidos do mundo mediterrânico.

Vaso anfórico de Gevelinghausen, carrinho votivo de  Acholshaussen, vasos e sítulas hallstáticas

Esta perspetiva pan-europeia permite mostrar uma serie de regularidades, como a prevalência de contendores para bebida no uso de Urnas metálicas, um 95% dos 598 totais do corpus coincidem em este padrão. No que em palavras da autora exemplifica claramente:  “A estandardização e continuidade de essas práticas aristocráticas práticas enfatizavam o status social de essa elite, o qual contribuíam a legitimar e perpetuar”

Distribuição das urnas metálicas a finais do s. VIII a.C.

Assim como Grécia parece ser o núcleo inicial de este uso, as primeiras a mostras fora de este contexto semelham proceder da região alpina, a ambas as duas beiras da cordilheira se topam este tipo de vasos em um contexto temporal que vai do s. XIV ao IX a.C. Ao norte dos Alpes este tipo de enterramentos se topam em zonas do Sul de Alemanha e Escandinávia e no SE de Centro-Europa, pré-datando esta prática em vários casos a cronologia dos Campos de Urnas (XIII- VIII a. C) onde se mantêm até a fase Hallstatt C.

Diversas urnas cinerárias de tradição dos Campos de Urnas da Cultura Villanoviana: urna de Bronze, com tapadeira imitando capacete, urna cerâmica brunida (para imitar o aspeto metálico) fechada com capacete metálico, urna cerâmica fechada com tapadeira em forma de copo; Urna cinerária canópica de época etrusca.  

Durante o período que vai entre o S. IX e VIII observasse uma expansão de este tipo de praticas unido frequentemente a expansão da Cultura dos Campos de Urnas assim como a uma serie de item de prestigio como caldeiros, determinado tipo de armamento, tanto na parte Oriental de Europa como na Itália (da Etrúria ao Lácio ou Campânia).

As similitudes entre as urnas bitroncocónicas itálicas e norte-europeias, mesmo em regiões tão longanas como Escandinávia, são significativas, o qual se observa tanto nos exemplares cerâmicos como metálicos, fechados normalmente com um casco que coroa ao defunto em um identificação corpo-urna que preludia as posteriores urnas canópicas etruscas, ou por patadeira com forma de copo aludindo de novo a âmbito convivial. 

Distribuição das urnas metálicas a meados do s. VI a.C.

Incluísse aqui também outras tipologias como as sítulas, caldeiros ou cistas, junto a exemplar tipo ânfora em algum contexto, usados com a mesma finalidade ou relacionados de um ou outra forma com o banquete. Nas área mediterrânea as urnas metálicas apresentam uma menor uniformidade respondendo a tradições locais, casos como o cipriota, ródio, ou na Magna Grécia, tradições em alguns casos desaparece rápido, entanto que em outros contextos do âmbito grego permanecera muito a posterior. Segundo a autora esta permanência estaria relacionada no mundo grego com peso da tradição épica homérica na cultura aristocrática. 

Vaso anfórico de Gevelinghausen, Museum für Archäologie Herne. foto: Dieter Menne

Zonas mais periféricas m contacto com o âmbito grego e itálico como o Adriático parecem amostrar um padrão funerário mais hibrido que combina a incineração com o costume autóctone de inumação. Em contexto centro-europeu e França a prática de incineração é substituída pela inumação durante o Ferro e os poucos casos de enterramentos em urna parecem ter conexões com o mundo itálico, se a incineração contínua predominando dentro da periferia etnicamente germana.


Bibliografia: 

Desplanques, E. (2022): "Protohistoric metal-urn cremation burials (1400–100 BC): a Pan-European phenomenon" Antiquity Nº  96/389 pp. 1162–1178  DOI: 10.15184/aqy.2022.109