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domingo, 25 de maio de 2014

O Corpo do Delito - de Censuras e Antropologias


Tomamo-nos ontem graças ao blogue Antropologia e Imagem esta curiosa fotografia que aqui ao cimo podeis observar, mas o mais curioso sem dúvida além da típica cena de encontro entre sujeitos de culturas distintas, e a história que detrás dela se topava.


A fotografia, é uma obra do fótografo Alexander (Sasha) Gusov em ela se regista o momento de encontro de sua esposa com umas mulheres da tribo himba (Namíbia) 2003, uma cena sem dúvida inocente mas que o facebook interpretou como sexualmente explicita e censurou


São longamente conhecidas as polemicas que sobre a consideração de qualquer tipo de desnudez -mais sobre tudo a feminina- nesta rede social baixo o epigrafe do pornografico, por mais que a sua intenção seja em muitos dos casos evidentemente artística e não sexual,


assim o caso da também fotógrafa Anastasia Chernyavsky e as fotos familiares, nas que mostrava a sua vida como nudista em cenas cotias que podemos topar em qualquer fogar, igualmente censurada pelo facebook e foi longamente comentado na internete.


Dá-se o paradoxo sem embargo de que na mesma rede social podem circular sem problemas imagens femininas espidas, contradição? não tal, não são fotografias decerto: são pintura ou estatuária sobre tudo greco-romana ou de inspiração clássica, e por tanto muito velha, e o


que é mais fundamentalmente parte de uma convenção ocidental da estética que não é considerada desde o nosso ponto de vista mais que como algo "artístico", e donde o corpo -nem sequer o feminimo- pode escandalizar ou chamar a tensão: O Desnudo Artístico.


Encasulados na nossa lógica resulta-nos curioso a nós entender certamente que culturas que têm elaborado esquemas de representação cultural do corpo que incluem variações física radicais do corpo em sim próprio careçam de uma conceção similar pela contra a ideia do "desnudo artístico" ocidental. Sentimo-nos chocados pela sua estética a suas formas a beleza, que consideramos


grotestas, mais ao melhor não tanto como para eles a nossa alienígena aparência. A nossas ideais sobre o tema obviamente são resultado de decorrer da história como igualmente os são as suas, e respondem, por tanto, a formas diversas de gerir e entender a realidade, o mundo, a sociedade, nas que o corpo é uma parte mais do jogo.


Neste sentido, no Ocidente temos elaborado uma peculiar dicotomia do corpo nu legitimo ou ilegítimo que não sempre concorda ou concordara, como no caso de acima, coas conceções que sobre o corpo têm outras culturas, pois finalmente e a fim de contas, a perceção que se tem do corpo alem da biologia e também, e sobre tudo, uma construção cultural


Ao respeito resulta tremendamente esclarecedora a cita que em Antropologia e Imagem se utiliza para mostrar esse paradoxal contraste entre o próprio e o outro:

"Entrevistei uma jovem antropóloga trabalhando com mulheres em Mali, um país da África onde as mulheres andam com os seios nus. Estão sempre amamentando seus bebês. E quando ela lhes contou que em nossa cultura os homens são fascinados com seios, houve um instante de choque. As mulheres caíram na gargalhada. Gargalharam tanto que caíram no chão. ‘Quer dizer que os homens agem como bebês?’, disseram".  (Carolyn Latteier, no livro All About Breasts)
O que numa cultura resulta escandaloso noutra pode carecer de qualquer matiz nesse semelhante, mesmo resultando -como aqui se comenta- a mesma sugestão de tal simplesmente "ridícula" e motivo brincadeira. Mas mesma diversidade de construções do corpo não escapa ao Ocidente, nos EE.UU tivera repercussão a polemica que se


gerara quando um recém-nomeado direitor do Departamento de Justiça, obrigara a vestir cum telão azul uma estatua alegórica do "Espírito da Justiça" de clara inspiração clássica pelo feito de que deixava ver um peito ao descoberto, consideração que não se tive, pelo contrario, coa alegoria masculina situada enfrente da Justiça que escapou a mais velos neo-tridentinos


Como as diversas perceções da moral afetam a entendimento de uns e outros consideram como artístico, assético sexualmente, e/ou bem obsceno e provocador no Ocidente?, seria um tema que daria muito jogo para os antropólogos e historiadores da mentalidade europeia,


pois é não apenas uma questão da delimitação ou elaboração do próprio conceito de arte, senão da criação da própria imagem do "clássico" ou da beleça como ideal ou tópico que serviu de base a estas ideias. Explicarei isto um pouco


Algo que lhes resultava tremendamente chocante aos meus alunos quando lhe explicava a estatuária clássica era o feito de que durante o próprio classicismo pleno, durante tudo o século V a.C, a dicotomia ascroftiana não resultaria, realmente, tão estranha. Pois mentres o


mundo grego admitia o nudez masculina, no deporte ou na arte, a desnudez total do corpo da mulher era frequentemente -havendo exceções- evitada e de feito considerada inadequada, em suma porque, a fim de contas, o contexto da estatuária era fundamente público e religioso. 


Limitado por esta convenção o escultor de finais do arcaísmo e o século V a.C. criara todo um subtil jogo de pregues marmóreos, telas que enchoupadas se pegam a carne ausente, e transluziam assim o corpo embora sem mostra-lo, trasparentavam anatomias cada vez mais evidentes mas sem descobri-las, e as vezes, como se soe dizer agora nos filmes, por exigências do guião, mostram parcialmente esse corpo deixando cair o chiton por imperativos do movimento


Mas topámos nesta imagens nuas algo que imediatamente nos resulta estranho como observadores afeitos a vários séculos de tradição artística "clássica", o corpo em parte quase nu na totalidade da mulher fugindo, caído já o vestido, resulta-nos inevitavelmente demasiado rotundo, pouco mole, e de certo, estranho e ate desagradavelmente musculoso.


Acostumado as subtilezas da transparência pétrea e do corpo intuído baixo a tela, o escultor clássico carece entanto dum cânon estético para a nudez feminina, e tem que reproduzir na talha ainda o hábito mais usual de trabalho de uma anatomia fundalmenta masculina. 


Ao mesmo tempo que isto passava a cerâmica de figuras vermelhas não duvidaria em mostra cedo o corpo feminino livremente espido. Longe do espaço publico, reduzida a um eido privado, fechado e masculino, consentido pela moral, quase como nessa dicotomia especular de Majas Vestidas vs Espidas, reduzído ao circulo privado do Andron, que como o nome indica "é coisa de homens" (e de hetairas), amostra-se nela sem problemas a nudez e o sexo, em sim próprio parte também do mesmo Simpósio.


Em fim, diverso, mais como vês caro leitor, não tanto no fundo das dicotomias muito atuais dum EE.UU a vez puritano e líder da industria eufemisticamente denominada "para adultos". Circu-la mesmo a tradição, lenda ou realidade pouco importa, de que um século mais tarde quando já os artesãos do classicismo tardio rompiam os moldes rígidos do século anterior desde a própria tradição clássica, e faziam mover-se como as estatuas como antes nem puderam ter imaginado,


desequilibravam forças e multiplicavam planos e pontos de vistam, aquela Afrodita Cnidia (mater de muitas posteriores) acabou naquela Iha de Cnido, que lhe havia de dar nome, trás ser com grande escândalo rejeitada pela polis que primeiro a tinha encarregado ao bom do Plaxiteles, pouco decoro toparam nela por representar nua a uma deusa, embora essa divindade fosse uma a qual o mito não caracterizava precisamente pelo sua moralidade


Mas aquela imagem rejeitada por imoral por uns e considerada artística por outros havia-se converter na primeira de muitas, num modelo que criava e assentava algo novo em sim próprio, mas que havia de ter um sucesso considerável, uma imagem da anatomia da mulher, das formas femininas, autónoma e diferenciada da masculina


Tempo de crise, tempo de câmbios de pensamento, politica e sociedade longo e complexo de enumerar aqui, a estética refletiu também -de novo- essa mudança na ética e na mentalidade, logo virá asinha o Helenismo, depois Roma ... e o resto -ate agora- é já bem conhecido, e parte da própria história das nossas proprias ideias.


Mas não deveramos esquecer, o mundo não e apenas o nosso mundo, há outras histórias: e nalgumas o Corpo raramente é a priori o do Delito.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quando as Estátuas também Morrem



No ano 1953 os diretores de cine Alain Resnai e Chris Marker realizavam esta pequena joia do cinema documental intitulada as Estatuas também morrem (les Statues meurent aussi), o filme promovido pela revista Presence Africaine foi resultado da colaboração de importante museus europeus como o British Museum, a Maison de L´Homme de Paris, ou o Museu do Congo Belga.


No filme faz-se uma interessante reflexão sobre o conceito de arte, e criticam-se as antinomias do colonialismo europeu sobre a África, centrado na arte o documentário põe em questionamento o etnocentrismo da distinção estabelecida entre a arte e a estética Ocidental e a dos povos africanos, através dela a própria classificação das formas icónicas africanas como Arte mostra-se em boa medida arbitraria, sem um sentido real no contexto que gerou essas mostras culturais, respondendo em resumem mais aos valores culturais europeus que a outra coisa


A través disto percebe-se como a própria categoria de artístico serve para alienar não só as coisas do seu contexto senão as pessoas, formando parte mais dum processo de "violência" cultural. Num mundo entre dois séculos condicionados pela expansão colonial das potencias europeias, a apropriação dos objetos indígenas e a sua inclusão em museus e coleções particulares, o impacto da estética africana na arte das Vanguardas, europeias não exento de uma atração pelo "primitivismo" em relação cós movimentos irracionalistas da época, da lugar a uma demanda da arte africana.


Mas paradoxalmente esta demanda da arte africana converte-se num espada de dobre fio, que "valoriza" em ocidente o alheio a costa de contribuir a sua decadência no lugar de origem donde as formas estéticas indígenas se tornam uma forma de artesoaria dirigida e orientada aos gostos do novo mercado do colecionismo ocidental



O colecionismo, e poderíamos dizer igualmente o mesmo de tantas coleções arqueológicas a través das que nos temos apropriado de passados alheios, ccumpre assim uma função ao mesmo tempo "depredadora" e "necrológica" que vem enunciada já nas primeiras frases "Quando os homens estão mortos, entram na historia. Quando as estatuas estão mortas, entram na arte. Esta botânica da morte, é o que nós chamamos A Cultura."



 Isto serve Igualmente de reflexão sobre a própria Conceição de Historia "Universal" como discurso unilinear e que deixa fora de sim aquelas outras histórias que não falam -ou ao menos fizemos que falassem de nos mesmos: esses chamados "Povos sem Historia", noção claramente etnocêntrica a que Eric Wolf dedicara o seu livro homónimo Europa e as Gentes sem Historia.


Neste sentido a própria genealogia da noção de "Africanismo" inacessível a ser integrada no discurso genealógico da Civilaçao europeia ao contrario da de "Orientalismo" que estudara Said, pressente-se como uma lógica que tem muito que ver ao menos a um nível subconsciente com aquela que guiara a aparição dos Gabinetes de Curiosidades que armazenam de jeito caótico -descontextualizado o extravagante, exótico, monstruoso ...


 Em resumem tudo aquilo que não e integrável na normalidade da nossa identidade pero sim submetivel segundo os casos a uma tipologia ou uma estética do alheio


sábado, 27 de agosto de 2011

A Roma que "nunca foi"

Quando um se encontra um capítulo em uma síntese geral -mas atualizada- como é a recente Europa Romana, com um título como "As Implicações culturais da Conquista" a primeira intuição sería certamente, de não conhecer a trajetória prévia e teorias do seu autor Nicola Terrenato, pensar que o que nos vamos topar e uma mais das versões standard adicadas a glosar o profundo impacto romano na transformação cultural do resto da Europa do seu tempo. Emporisso o que aqui encontramos  é precisamente tudo o contrario, pois o que se nos oferece nestas páginas é sobre tudo, uma revisão “em negativo” precisamente dessas "implicações" e supostas influências.

O autor enfrenta o que poderíamos denominar, fazendo um simil filosófico, como uma crítica a "conceção herdada", não já sobre o que se entende por romanização, senão em realidade de algo mais amplo a própria perceção de Roma e o mundo romano. Esta se define por uma reinterpretação ao longo da história resultado do prestígio "herdado"do greco-romano no mundo post-clássico e com um especial ponto de inflexão no que se refere ao aparecimento dos Estados modernos, que monopolizaram a  Roma como uma imagem especular na que ver refletidas as suas próprias práticas de expressão do poder, em realidade inovadoras, e que pouco tinham que ver com a natureza real do fenómeno romano

os Coloniçadores romanos "civiliçadores" e indigenas "salvagens"

Assim os estados europeus justificaram em Roma tanto as políticas e a ideologia centralizadora, nos seus múltiplos aspectos, económicos administrativos, ao mesmo tempo que tomavam este modelo de uma Roma centralizadora e intervencionista como praxis da sua ação no mundo colonial. Terrenato observa paradoxalmente que conquanto o ocaso da ideologia do estado nacional e a descolonização socavam estes usos simbólicos, estes simulacros do romano, dentro das novas interpretações que saíram dessa crítica se seguiu mantendo a mesma imagem de fundo que servia de paisagem à velha ideologia, a de uma Roma tudo-poderosa cujo impacto -já fosse político, administrativo, ou, nomeadamente, económico-  em uns povos definidos como poderes "mais moles", menos organizados, ou -mais moderna e antropologicamente- com un chisco "segmentários" devia de produzir de necessidade profundas mudanças em todos os âmbitos de vida, e um troco cultural tão inexorável como profundo. Neste sentido o artigo de Terranato apresenta-se a tarefa pouco ao uso de "de-construir" um por um os fragmentos desta paisagem histórica que foi estaticamente assumido como imagem do que se supôs o contacto entre Roma e o mundo não-romano


Por um lado - entende- há que definir a diversidade desse mundo não-romano, distinguindo entre um núcleo "interior" constituído pela área mediterrânea, onde se levavam produzindo interações culturais prévias durante séculos e onde a conquista romano não tem uma relevância maior que outras circunstâncias, ao respeito, Terrenato que é conhecido pelos seus estudos sobre os relacionamentos entre as elites etruscas, itálicas e romanas a partires do seu conhecido modelo de "negociaçao" entre elites dominantes, observa que as instituições políticas e económicas que entendemos como romanas são o resultado de uma longa confluência resultado de um prolongado contacto no que o elemento romano frequentemente se mostra finalmente como um equivalente, uma lingua franca instituçonal, util para agilizar relações. Mas noutros casos, como sucedera nas zonas mais helénicas, se fara sem problemas a um lado para deixar o seu posto preponderante às instituições gregas prévias e mesmo ao próprio idioma grego que seguira a ser uma lingua vehicular principal em tudo o mediterraneo oriental.

um dos bronzes de Botorrita, um texto legal celtiberico em época romana

Por outro lado no que o autor define como "círculo exterior" entendido como a periferia do mundo mediterrâneo e -entre ela- o ocidente europeu se aprecia pelo contrário uma receção de elementos do conjunto que já era forjado na koiné mediterrânea, mas cujo grau de influência não foi igual em todas as feições da vida. Terrenato observa que a influência romana prefere começar por aqueles contextos ou lugares onde o prévio era mais próximo ao que já era conhecido no Mediterrâneo, embora estas influências atuarem sobretudo em determinados elementos que incluiam sobretudo às elites da sociedade, em especial no que se refere aos seus relacionamentos com o Estado e a administração romana, mais que no que se refere as próprias estruturas locais

Em muitos lugares as antigas solidariedades e clientelas políticas seguiriam em poder dos mesmos grupos que em certa forma aproveitaram o novo contexto para manter o status quo, e promocionar-se politicamente no império, mentres que no âmbito local as cousas podiam a seguir a desenrolar-se ainda -mais ou menos- nos mesmos termos. Ao respeito Terrenato põe em dúvida elementos tradicionalmente tão definidores da romanidade como a extensão da cultura jurídica:

"À luz destas considerações básicas, parece já evidente que a tão cacarejada afirmação de que o sistema legal romano mudou a cultura ocidental para sempre jamais é mais bem falsa. Uma rápida olhada ao direito medieval fora dos mundos bizantino e árabe revela que as práticas e os conceitos romanos que sobrevivia ao derrube do império ocidental são mínimos. Como muito, a conjuntura na Europa continental assinala a existência de um substrato de direito consuetudinário pronto para ressurgir assim que dissolveram-se umas estruturas imperiais que já começavam a ceder."

Assim a imagem tópica que temos do direito romano responde mais, por tanto, à revalorización tardomedieval e sobretudo Moderna do antigo direito romano, tomado como modelo pelo direito público europeu a partir da Renacimento. Com elo Terrenato recolhe o legado de algumas contribuições prévias desde as surgidas em torno da questão do "Direito Vulgar" que tras permanecer "invisivel" agroma de supeto na tardoantiguidade, até as mais recentes, que se centraram em pôr em questão a extensão real do direito romano, sobre tudo para o mundo grego-oriental, mas também ocidental,  falando-se em ocasiões mesmo dun certo "conflito de leis".

Em certa forma, como há tempo destacamos em uma palestra vai uns anos a própria imagem que temos do direito romano como "um tudo" em si proprio, uniforme e acabado, a modo de um Manual ou Código Civil com a que se costuma perceber aquel, deve mais às recopilações jurídicas da tardo-antiguidade que ao eido longamente pluralista e até algo inconexo, mas -ou precisamente por isso- profundamente fecundo da  literatura jurídica antiga.  Natureza algo caótica a que precisamente essas codificações pretendiam pôr coto e fim. Embora quando estes códigos se elaboram as estruturas políticas e administrativas do Imperio estavam já -ao menos no ocidente- em franca recessão  e careciam da capacidade de pôr em practica este programa nuns círculos locais que comezabam a acostumar-se, cada vez mais, a substituir no âmbito bis-a-bis à "autoridade ausente", e que -cecais- nunca estivo em geral tampouco demasiado presente alem das capitais provinciais e conventuais

Em resume o contributo de Terrenato a este volumem, descreve-nos a pluralidad e diversidade de um processo mais complexo do que com frequência se descreveu, e do que em certos âmbitos académicos e geográficos cada vez se receia mais em definir como "romanização". Desde as instituições formalmente romanas da Etruria, ou a koiné jurídica helenística, sincretiçadas com as formas e terminologias jurídicas latinas, às "Civitates Virtuais" rurais, sem núcleo urbano real tras de sim, e algo "tribais" ainda em certa forma, que atopamos nos lugares mais ocidentais do Império, da Britania ao Danubio, Germania, ou, mesmo, e como nega-lo, a nossa Gallaecia. Um mundo onde um africano podia chegar a emperador ainda que a sua irmã apenas falai bem o latim, e do se tenhem assumido retrospetivamente demasiadas coisas.

Estas e outras feições, alem do jurídico e administrativo,  como a língua, a onomástica, ou a arte provincial,  são analisadas de uma maneira brilhante e com soltura por Terrenato nesta breve mas  preciosa síntese do que o mundo romano foi e -sobretudo-  do que "nunca foi".  Uma leitura muito recomendavel
 

domingo, 31 de julho de 2011

Racismo Neanderthal - Uma Reflexão


No Landesmuseum Für Vorcheschichte de Halle onde se atopa o disco de Nebra, do que antes falamos, existe uma figura que reproduz a um Neanderthal sentado numa provocativa posse ao “Pensador” de Rodin, que sempre me resultou atraente polo paradoxo que representava, aquel de dotar da expressão das mais altas capacidades intelectuais a alguém a quem se lhe tenhem negado tão a cotio.


Entre o Estigma e a Culpavilidade

O Neanderthal têm tido desde sempre mala prensa, e possivelmente dele se tenham dito cousas bastante absurdas hoje e que nos seus dia parecerem lógicas e ainda provadas verdades e axiomas científicos, o caso e que na mente popular e na de muitos investigadores, e um pouco na de todos nós, o Neanderthal segue ainda jogando –ao seu pesar- esse papel de quinta-essência do "Selvagem" no seu melhor e pior sentido.

Casal de Neanderthais, diorama da Exposición Universal de Paris de 1889

Da vida e, sobre todo, da morte do Neanderthal tense dito muito, desde os que imaginavam quase uma guerra direta pela supervivenza remedando ao mais puro drama de Cain vs Abel, no que, como daquela, aos inventores da civilização tocaria-lhes se-lo assim mesmo do assasinato: sim nós matamos ao neanderthal (mea culpa),  ate os que via a cousa mais ecologicamente como resultado dum conflito mais indireto polos recursos, daquela nós não nos comemos ao Neanderthal, mais nos comememos-lhe a comida a ele, "matamo-lo de fame", em resume …o caso e que o mea culpa, era a respeito escassamente entoado, pois como soia dizer o nosso estimado Eulogio Losada explicando-lhes  o sentido positivo do termo “bárbaro” em Castelhano, aos seus surpreendidos alunos franceses da Sorbonne “a fim de contas somos bárbaros e não imos falar mal de nós mesmos”, e quando não há culpa do culpavel obviamente será da vítima a ela, que algo teria feito, entenda-se.

Mas há um pequeno problema, e como é lhe roubamos a comida ao “curmão” Neanderth? que tão bem se conhecia a tundra glacial de toda a vida, era mais forte, perdia menos calor com esse corpo compactado de jogador de rugbi que lle tocara de serie. Dificilmente nos feblinhos lhe ganhariamos um pulso evolutivo a este cachimán dos gelos, a resposta veu ao estilo da bíblica dicotomia de Jacob e Esau, e é que quando não possas com ele, e o tenhas certamente difícil, se mais listo cá ele.


O importante é o Conceito. Simbólico, demasiado simbólico

Certamente nós eramos-che listos, mui listos, e isto dava um bom motivo e coartada para justificar como “suicidáramos” ao bom do curmão Neandert se extinguiu por ser “um pouco mais curtinho” de luzes que nós, ou por dici-lo mais suavemente por não ter “pensamento simbólico”, mesmo com certa “consciência de culpa” ainda podíamos novelar e rodar românticas historias nas que o Neanderth contemplava o seu ocaso no Far West crepuscular dos gelos (Le Dernier Neanderthal), incapaz de se fazeres cós novos dons da cultura sapiente sapiente

Pouco importava, ao respeito que este “incapaz simbólico” enterrara já aos seus mortos em tumbas e num leito de flores …gesto “poético” mas que a alguns paleontólogos não lhe parecia abondo simbólico, pouco importava tampouco que ainda este “curmão” longano pudera mesmo dedicar-se nos ratos livres entre a caça do Mamute e do Bisonte a enredar sacando-lhe a um oso com furados alguma notas coma se dum whistle irlandês se trata-se, muito musical, certamente, diriam alguns mas pouco simbólico polo visto.

Reconstrução do enterramento ritual de Shanidar (Kurdishtan)

Assim se criava um pequeno quadro desses Sapiens Sapiens, (pois quem sabe sabe) e dos menos sapientes Neanderthalenses, vivendo a carom, juntos mas não revoltos separados polas suas culturas materiais carom, e os cérebros capacitados para as mais altas/ou não cotas de expressão simbólica. O caso e que todo isto, o chamado “Big Bang” cultural do Paleolítico superior precisava de várias explicações. Porque este “curmão” longano, có que nunca nos quisemos relacionar e que nada nos tinha invejar por crânio, não protagonizou igualmente o “boom” do simbólico?.


Não falas que não te entendo

 Explicações deram-se moitas, alguns diziam que o Neanderth num rasgo mais do seu “imperfeito desenho” fronte o Cromagnon, isto obviamente não se dizia Assi, pois somos tão politicamente corretos como simbólicos, e não queremos ofender; tinha todas as capacidades para a linguagem mas não a ferramenta, já que pela posição da sua gorja não poderia articular toda a variedade de sons do falador Sapiens Sapiens. Então o bom curmão bem puido, aquela manha fria e monotona em que lhe deu em querer departer com Sapiens, rematar parafrasando o verso de Pondal, de feito,e concluir com aquelo de "não nos entendem, não!"

Diferenças entre o aparato fonador de Neanderthal e do Cromagnon

O caso e que quando eu isto escoitava e examinava o argumento do tipo de que se lhes faltaria tal ou cal vogal ou consonante, não deixava de matinar em que nisto havia um grande etnocentrismo arredor do nosso próprio conceito de linguagem, e pensava nos bosquimados K!ung Kalahari, e sobre todo nesse “!” que representa um som que nem os europeus nem os asiáticos soemos gastar nas nossas línguas: o “chasquido”, ainda que si o podamos articular, e que para eles é tão natural e frequente como para nos podem ser o resto das vogais

Que pensaria um K!ung de mim que não sei falar com chasquidos de cada dois fonemas, certamente uma possibilidade e que dissera simplesmente que não sei falar, ou que faço “bar,bar, bar” (sereiche parvo!) sem jeito nenhum como diz que fizeram os gregos quando criaram a verba para esses incultos estrangeiros que tatexaban uma xerga sem o mais mínimo sentido e decoro.


O Mal dentro dos Ossos

Todo indicava que nos e esses curmãos cós que não nos falávamos éram-nos muito alheios, tanto que nem nos devíamos dar o saúdo e, menos, tratar-nos e intimar: que ainda que há classes por muito que isto seja a pre-história, em remedo quase daqueles burgueses victorianos que viam nos obreiros dos bários industriais “uma raça” aparte. Outros igualmente dizerem o mesmo, confiados no seu stock saxónico e no Glorioso ilhamento (hora insular hora continental), de irlandeses, galeses, italianos ou hotentotes, eram outros tempos e a primazia cultural económica, e política, digamos, “simbólica” devia de vir dalguma parte. E nesses tempos em se empeçavam a cavar fossiles, sacar os primeiros antergos da terra, o mesmo tempo que se media o angulo facial e as formas e proporçoes linneanas do corpo humano dos vivos, preferentemente prostitutas, convictos, e como se soia dizer nalgum tempo “murcianos y otras gentes de mal vivir”, nesses tempos alguns pensarem que essa primazia “simbólica” havia de chegar mesmo aos ossos

Tipos fisicos supostamente galeses, J. Knox; Fisonomia criminal de C. Lombrosso

Assi alguns eram altamente inteligentes e industriosos, dados a civilização e as boas maneiras mentres que havia outros que, não havia mais que ver-lhes a cara, nunca o conseguiriam. No debate entre a Herança e a Cultura a primeira antropologia física inclinou decote, com exceções sinalaveis, o equilíbrio cara a biologia e fixo da cultura, do simbólico, um apêndice mais da cor dos olhos ou da beleza geral, jogando cecais com certa estranha tendência do género humano a qualificar a “ética” ou a “bondade” pola "estética".  Obviamente pensaba Lombrosso que aos criminais e mulheres de mar viver sempre se lhe notava algo na cara ou mais concretamente no cranio, e certamente nos contos de fadas as princesas sempre são belas, fermosas e exemplos de bos pensamentos e melhores obras, e os perversos feios e mesmo algo monstruosos, e o Neanderth como alguns mineiros galeses certamente não entrava nos cânones estéticos, nem nos perfis gregos, da época.

"Graos de Inteligencia" segundo os angulos faciais supostamente relacionados com niveles arcaismo biológico segundo S. R. Wells, New Physionogmy(1867)

Mesmo alguns quixerom atopar-lhe nisto uma estratigrafía comum a tão incorretos perfis  ao-querer ver nas classes baixas, assim como  nos colonizados exóticos dos outros Terceiros Mundos, os restos de estirpes primitivas, …e isso era malo muito malo pois adulterava a puridade do nosso stock simbólico e nos fazia menos sapiens. Não compre explicar mais a onde nos levou no proceloso século XX tudo isto, penso que está claro


De Curmão longano a Avo Re-atopado

 O caso e que cecais pela facilidade que têm o passado e quanto mais remoto ainda, para sen converter em Pais Estranho ao nosso Presente, que terá que ver a fim de contas uma coisa coa outra?, no discurso ao redor daquele curmão “pobre”, simbolicamente falando, manteron-se certas contiguidades, e ainda algumas continuidades. Poucos forem certamente partidários nos últimos anos de romper o Apartheid Neanderthal e pensar, mesmo imaginar que nós e esses curmãos ainda mais alheios que o passado, tivemos mais que ver do que nos gostaria de reconhecer, vergonha tal vez de ser “algo curtos” simbolicamente, ou de parecer pouco aptos para os bons modos da cultura sapiente: o problema dava para um bom psicanalista certamente.

E assim pusesse a ultima fronteira, não nos tratávamos simplesmente porque não nos pudéramos falar largo e tendido ou porque os temas de conversação sapiens foram um pouco espessos e exotéricos -cecais algo inteletuais demais- para os nenanderthais, isso de ser-che “simbólicos de mais”, não nos tratávamos porque simplesmente éramos totalmente distintos -faltaria mais!- e como o aceite e água incomensuráveis, eram já não raças mas espécies diversas, e geneticamente incomunicaveis.

Enterramento de Lagar Velho, Alentejo (Zilhão & Thrinkhaus,2002)

Em todo isto vai anos no Lugar de Lagar Velho em Portugal atopou-se o esquele dum neno que pareciam ter nos seus ossos, uns estranos rasgos misturados, no que parecia ser um híbrido de ambos Sapiente e Neandertaloide a um tempo. O neno de Lagar Velho deu lugar a uma longa polémica de posições encontradas que se refletiu extensamente daquela na página do Instituto Português de Arqueologia (IPA), e na que se exibirem as mais curiosos argumentos a favor ou em contra da Possibilidade ou Impossibilidade da relação entre Sapienstes e Neandertais, que se as suas culturas materiais eram diversas, que se igualmente os seus mundos mentais seriam igualmente alheios.

A mim no fundo mirando como espetador alheio, e não paleolitista, tudo isso não deixava de dar-me a sensação de algo conhecido que poderíamos definir cum termo muito claro no nosso vocabulário: “racismo”, existia um racismo para com o Neanderthal?

Anos depois no célebre documentário A Odisea da Espécie recolhia-se o caso de neno do Lagar Velho numa dessas típicas fabulas românticas em que a última mulher nenanderthal era acolhida por um grupo de homens sapiens, sapiens, case num ato de caridade hominídea, mais o neno froito daquilo era o último grounido do neanderthal, inutil igual que esse amor furtivo e ocasional na linha da evolução. O neno de Lagar Velho era, dizia-se daquela, como essas mulas que saem coma resultado do cruze dos nobres cavalos/éguas e humildes asnos/as, que ainda que possíveis e toleráveis não são viáveis geneticamente a meio prazo para a reprodução. O semi-neanderthal, "filho do amor" era-lhe material de refugalho que marcava só e unicamente a fim duma vizinhança por regra geral pouco sociável, culpa seria do Neanderth com essa cara de túçaro que tinha, e que amais não te falava bem. O Amor polo Neanderthal, a parte de ser socialmente mal aceitado, era um amor estéril

Parecia cerrar-se Assim o circo da "exclusão", mental, cultural, social e agora genética do tantas vezes chamado os nosso curmão longano, o Neanderthal, nunca tivemos nada que –ou quase- ver, e nunca o teríamos.

E todo isto, meus leitores, se dizia quando ainda nem sequer se identifica neghum rastro da sequência genética dos neanderthais. E o caso e que agora vai um ano graças a uns dentes atopados em Sibéria e alguns outros ossos por aqui e acola, pudesse sequenciar o genoma real de aqueles homens do gelo glaciar, e vaia surpresa, de repente vesse que de tão alheios que eramos, não o éramos a fin de contas, e mais surpresa de repente outros investigadores vem que a uns cantos rasgos genéticos desse genoma de neanderthal encaixam coma luva a mão com alguns riscos "raros" que estão espargidos no genoma de todas as povoações humanas de Sapiens Sapiens que abandonarem África, e dizer que os todos os europeus, asiáticos, americanos nativos e aborígenes australianos temos em comum uns peculiares restos genéticos herdados do neanderthal

Saartije Baartman a chamada "Venus Hotentote" foi exivida em ferias no Paris e Londres do s.XVIII, e logo disecada no Musée de L´Homme

Assim paradoxalmente e malia o que pensavam os victorianos e o outros "rostros pálidos" do XIX a Vénus Hotentote pouco tinha que ver co prognatismo das camadas neanderthais, pois para neanderthais já estávamos nós, igualmente poderia dar-nos em fantasiar recordando aquela velha película Em busca do Lume que alguns dos nossos riscos europeus bem puderam vir-nos daqueles nossos avos por parte neanderthal, e não do lado Sapiente, simbólico e "africano" que arribava daquela, e pode mesmo, logo o veremos, que isto ainda nos senta-se bem e fosse uma vantagem naquelas terras tão frias e novas.  Certamente, um prato, cortado ao bifaz, que não lhes será de dom gosto a xenófobos, racistas ou etnocentristas vários. Alá eles

E assim agora, probas de paternidade por meio, sabemos que o bom do Neanderth, sim aquele curmao tão rarinho e longano, desses que se vem mais bem pouco, e fundamentalmente nos funerais, ou cecais nas vitrinas dos Museu acompanhando a Chimpaçes e Gorilas, era em realidade o Bom do velho Avo Neanderth. E assim comocionados ainda pelo segredo de família descoberto, e com toda a árvore genealógica removida virada patas arriba, só nos queda miram-nos no espelho, fazer algo de propósito de enmenda e dizer, a fim de contas: Benvindo a Família


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sexta-feira, 29 de abril de 2011

As Frases - Venceslas Kruta



"La Galice est certainement une des régions de l'ancien monde celtique où cet héritage est le mieux perceptible. Il se révèle non seulement par des réminiscences isolées, mais par la présence d'un véritable système qui n'a pas encore perdu sa cohérence." 

( Venceslas Kruta é Catedratico de Arqueologia na Sorbonne, meitre de Conf. na EHESC, foi ponente no Congresso de Narão )